Tensão no Mar Vermelho eleva preços do frete e já desafia economia global

Na Atualidade, o Mar Vermelho é uma das principais rotas marítimas do comércio internacional, que os mercados começam a prestar atenção – uma vez que já se sente os efeitos sobre o comércio e o custo do frete.

Desde a semana passada, a guerra entre os Houthis, apoiados pelo Irã, e o governo do Iêmen, tornou-se o problema mais imediato para a economia mundial. Embora os confrontos na região existam há 20 anos, a coalizão militar liderada pelos Estados Unidos para conter os ataques à navegação comercial pode ter impacto global.

 

“Os confrontos no Mar Vermelho estão desafiando a logística e o comércio global”.

— NORBERT RÜCKER, CHEFE DE ECONOMIA E PESQUISA DO JULIUS BAER, EM COMENTÁRIO.


Segundo a Eurásia, os ataques dos Houthis contra navios comerciais que navegavam no Mar Vermelho fizeram com que os volumes de carga caíssem 65% em relação aos níveis normais. “A operação liderada pelos EUA procura proteger o transporte marítimo mundial de bilhões de dólares que passa pela região”, afirma a consultoria, na newsletter diária GZero.

Porém, o risco de desabastecimento de energia no curto prazo é baixo, devido aos estoques elevados de petróleo e gás natural. “O armazenamento de energia em geral é amplo, o que oferece uma proteção robusta contra interrupções temporárias no fornecimento ou picos de demanda com o inverno (no Hemisfério norte)”, emenda Rücker.

Já na visão da Capital Economics, “surpreende” o fato de o agravamento da situação no Oriente Médio, que estava tensa desde o início dos conflitos entre Hamas e Israel em outubro, não ter provocado um salto nos preços do barril da commodity. Ao que tudo indica, por ora, a produção não foi afetada e a oferta segue forte, avalia a consultoria, em relatório.

 

Geopolítica escala custo


A questão é que o estreito Babelmândebe é tido como um local geográfico-chave para o acesso de quase toda a navegação entre o Oceano Índico e o Mar Mediterrâneo por meio do Canal de Suez. Juntos, o Babelmândebe, o Mar Vermelho e o Canal de Suez são as ligações vitais para a principal rota de navegação do mundo, entre Ásia e Europa.

Segundo o site Asia Financial, 12% do tráfego marítimo mundial transita através dessa rota mais curta, pelo Canal de Suez. Tanto que China e Índia já pediram o fim dos ataques a navios no Mar Vermelho, que têm colocado em risco os interesses comerciais das duas maiores economias asiáticas.

Pequim teme pelos investimentos estratégicos feitos no Egito, por onde passa o Canal de Suez. Desde 2014, a China intensificou os aportes produtivos em setores de logística, transporte e energia no país africano, de modo a garantir um fluxo grande e contínuo de mercadorias através da rota navegável com destino ao ocidente. 

Recalculando a rota
Do lado da Índia, os ataques dos Houthis já duplicaram o custo das exportações do país, que embarca 80% das suas mercadorias para a Europa. Ou seja, aproximadamente US$ 14 bilhões por mês em produtos indianos navegam pelo Mar Vermelho em direção ao velho continente.

Exportadores indianos citados pela Reuters afirmam que 95% dos navios do país foram redirecionados para cruzar o Cabo da Boa Esperança. Trata-se de uma rota muito mais longa, no extremo sul da África, onde os portos já estão sobrecarregados, de modo a evitar o Mar Vermelho. O desvio adiciona até 20 dias de viagem desde a Índia.

Ainda segundo essas fontes, o custo de envio de um contêiner da Índia para a Europa, a costa leste dos Estados Unidos e o Reino Unido subiu para US$ 1.500, de US$ 600 antes dos ataques deste mês no Oriente Médio. Combinados, o aumento do frete e o atraso na entrega das economias devem atingir as exportações indianas em US$ 10 bilhões.

 

Impacto no bolso


Em entrevista ao Financial Times, Vincent Clerc, presidente-executivo da Maersk, afirmou que o desvio de navios porta-contêineres através do Cabo da Boa Esperança acrescenta 13 mil quilômetros de distância e “centenas de dólares” por contêiner. Com isso, pode haver um impacto inflacionário para empresas e consumidores.

“Neste momento em que a inflação é um grande problema, isso significa exercer pressão sobre os custos, os clientes e, em última análise, os consumidores na Europa e nos EUA”, disse ao FT. Para Clerc, os impactos mais significativos devem ser sentidos entre o final de janeiro e ao longo dos meses de fevereiro e março.

Ao mesmo tempo, o executivo da Maersk, empresa líder do comércio global que transporta cerca de um quinto do frete marítimo no mundo, lembra que também pode haver consequências na disponibilidade de produtos. “Não apenas para a indústria, mas também para a economia global como um todo”, acrescentou Clerc. 

Com a rota comercial Ásia-Europa prolongando a viagem dos contêineres, a produção pode sofrer interrupções. Aliás, algumas montadoras europeias já anunciaram paralisações temporárias. Por outro lado, seguradoras evitam cobrir navios que naveguem pelo Mar Vermelho, com a Shell deixando de transportar petroleiros na região.

Assim, a escalada da tensão no Oriente Médio impacta o bolso de produtores e consumidores mundo afora. Essa pressão sobre os preços também pode adiar ainda mais a vitória do Federal Reserve contra a inflação, bem como o início dos cortes nos juros por lá. De quebra, o ritmo de queda da taxa Selic tende a se manter, parando mais perto de 10%.

 

“A crise no Mar Vermelho reduz o trânsito de carga e torna mais difícil manter a inflação baixa” 

— MICHAEL EVERY, ESTRATEGISTA GLOBAL DO RABOBANK, EM RELATÓRIO.

 

Para ele, os mercados financeiros ainda avaliam o mais recente conflito como “transitório” e não conseguem ver o impacto iminente de uma economia mundial cada vez mais “geopolítica”. Segundo Every, embora o cenário atual não seja tão ruim, pode haver efeitos de segunda e terceira ordem sobre a economia.

“Contra esse pano de fundo geopolítico, alguns podem ser capazes de juntar os pontos e sugerir que pode haver um novo afrouxamento monetário nos EUA. Mas não parece existir uma solução rápida ou fácil para esta crise do Mar Vermelho”, conclui o estrategista do Rabobank.

 

Fonte: Invest News